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| SAIBA
MAIS...
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na reportagem que você gostaria de ler
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Quando é demais. Todo mundo tem manias.
- Você já fez alguma cena de cíume?
- Você já sentiu inveja da pessoa
amada?
- Quando as palavras ferem.
- Como lidar com a morte.
-
Repetência: a grande culpada.
- Sucesso na aprendizagem fortalece o
aluno para a vida.
- Como lidar com o climatério.
- O sexo acaba com o casamento?
- Ensinar bem...é saber elogiar.
- O que você espera deles?
- Psicoterapia: Remédio para a alma.
- Um pra lá, dois pra cá.
- Brincadeira é coisa séria.
- Mito atrapalha desejo sexual.
- Sem memória não há aprendizagem.
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Você
já fez alguma cena de ciúme?
Por
Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga.
Publicado no Diário do Grande ABC
em 01/08/2004. |
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Recebi
o seguinte e-mail de uma leitora: “Meu marido chegou atrasado
em casa, quando tínhamos uma festa nos esperando. Enquanto
ele tomava banho, recolhi sua cueca e vi que estava suja de
sêmen. Fui sozinha à festa e depois ele chegou.
Quando o vi, bati na cara dele na frente de todos. Ele revidou
e foi aquela baixaria...”
“Como será que homens e mulheres reagem quando
algo semelhante acontece? Pensando nisso, lancei a pergunta
no meu site: “Você já fez alguma cena de
ciúme? Como foi?” O placar foi: 84% responderam
Sim ; 16% , Não. Pelo jeito, a maioria das pessoas já
perdeu a cabeça com medo de perder o parceiro. Selecionei
algumas respostas:
“Num restaurante, meu namorado olhou para uma garota que
passava (mais precisamente para a sua bunda). Como percebi e
já estava meia alta, levantei-me e joguei o resto do
vinho de minha taça nas pernas dele...”
“Quando vi minha namorada ser olhada várias vezes
por outro cara, gritei, esbravejei, xinguei e fui embora.”
“Meu namorado estava comigo numa festa e depois chegou
sua ex-namorada. Fiquei super na minha e segura. Porém,
em determinada hora, vi-o conversando animadamente com ela.
Imaginei que estavam combinando um encontro. Quebrei o maior
pau com ele. Pela reação dele e, pelo seu modo
de ser, vi que não era nada daquilo, fiquei muito sem
graça; perdi a espontaneidade. E como todo mundo sente
a energia do ambiente, a ex dele passou a ser a segura da festa.”
“Foi durante uma festa de casamento. Percebi que o garçon,
que estava nos servindo, olhava de maneira indiscreta e lasciva
para a minha namorada. Fiz uma cena que jamais imaginei que
faria. Hoje tento me controlar mais. É uma situação
terrível e constrangedora, ao mesmo tempo que é
quase incontrolável.”
“Estávamos em um baile e uma moça bêbada
veio pedir para o meu noivo dobrar a manga da blusa dela e começou
a cercá-lo num canto da parede. Ele ficou super sem graça
e eu enfiei as unhas no braço dela e gritei: “larga”..
Hoje me arrependo, tenho até vergonha disso, mas na hora
é incontrolável!”
“Fomos a um shopping no sábado à tarde,
para comprar tênis para o nosso caçula. Eu fiquei
vendo umas lojas, e o meu marido foi com as crianças
para a loja de tênis. Quando cheguei lá, ele estava
pagando a compra e a vendedora e a caixa se derramavam em cima
dele, brincando, rindo, pedindo telefone. Eu já entrei
furiosa, dando o maior vexame, perguntando se ele tinha encontrado
alguma amiga de infância da minha sogra.
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A
caixa ainda teve a cara-de-pau de explicar: ‘Desculpe,
dona, é que sábado é dia dos pais descasados
fazerem compras para os filhos e como o seu gato estava sozinho,
a gente achou que podia atacar...’ Depois, ainda agüentei
muita reclamação dele e risadas das crianças.”
Poucas pessoas não consideram o ciúme como parte
do amor. Há quem acredite que sem ele não exista
o sentimento. Essa é mais uma daquelas afirmações
que as pessoas repetem, sem nem saber bem por quê. Por
ciúme se aceitam os mais verdadeiros tipos de violência
contra o outro, sempre justificados. Penso que qualquer atitude
ciumenta é um desrespeito à liberdade do outro.
A visão equivocada do ciúme na relação
amorosa, origina-se da forma como o adulto vive o amor –
muito semelhante à relação amorosa entre
a criança pequena e a mãe. A criança sempre
se sente ameaçada de perder o amor da mãe, mas
ela tem um motivo real para isso: necessita de cuidados físicos
e emocionais. Sem esse amor, ela perde o referencial na vida
e fica vulnerável à morte física. Para
se garantir, deseja a mãe só para si e, então,
se mostra controlada, possessiva e ciumenta.
Porém, quando crescem, todos imaginam que se tornaram
independentes. Basta, no entanto, entrarem numa relação
amorosa para, por meio da pessoa amada, tentarem resolver todas
as necessidades infantis que pareciam superadas. O antigo medo
infantil do abandono reaparece, e em tudo se reedita o modelo
de vínculo primário que havia com a mãe.
Acrescente-se a isso as idéias tão propaladas
na nossa cultura de que o amor é a solução
para todos os problemas, e o convívio amoroso a única
forma de atenuar o desamparo. A pessoa amada passa a ser imprescindível.
Como se fosse natural, aceita-se que o controle, a possessividade
e o ciúme façam parte do amor.
O ciumento, geralmente, é quem apresenta duas características
fundamentais: baixa auto-estima e incapacidade de ficar bem
sozinho. Quem é inseguro, não se acha possuidor
de qualidades e tem uma imagem desvalorizada de si próprio,
teme ser trocado por outro a qualquer momento. Para evitar isso,
restringe a liberdade do parceiro e tenta controlar suas atitudes.
Só quem acredita ser uma pessoa importante não
sente ciúme. Sabe que ninguém vai dispensá-lo
com tanta facilidade. E se tiver desenvolvido a capacidade de
ficar bem sozinho, sem depender de uma relação
amorosa, melhor ainda. Pode até sofrer em caso de separação,
mas tem certeza de que a vida continua.
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Você
já sentiu inveja da pessoa amada?
Por
Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga.
Publicada no Diário do Grande
ABC em 11/07/2004.
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Suzana,
35 anos, é casada com Paulo há oito anos; ambos
são médicos. A relação nunca foi
muito fácil devido à competição
do marido com ela e às constantes críticas que
ele faz. Há três meses, Suzana procurou psicoterapia
por estar em dúvida quanto à manutenção
do casamento. “Paulo sempre tentou me derrubar. No início
do casamento não dava para perceber muito, porque eu
tinha acabado de me formar e ainda não tinha emprego.
Na medida em que fui melhorando na profissão, nossa vida
começou a piorar. Se penso em fazer um novo concurso
ele sempre arranja um jeito de me desestimular. Quando decidi
dividir um consultório com um colega, ele colocou todos
os defeitos e me apavorou com a idéia de que eu não
conseguiria clientes e só teria despesas. Sem contar
as críticas que faz pelo meu jeito de ser, diz que sou
comunicativa em excesso. Somos diferentes em muitos aspectos,
mas o problema é que o tempo todo tenho que fazer um
grande esforço para não me sentir diminuída
e com a auto-estima abalada. Agora ele deu até para inventar
que estou com celulite. Acho que não dá mais.”
Às vezes conhecemos duas pessoas que vivem juntas, mas
são tão diferentes entre si! Será que conseguem
se entender? Como será o cotidiano delas? Aí lembramos
que sempre ouvimos dizer que os opostos se atraem. Mas será
que essa lei da física também pode ser aplicada
ao relacionamento humano? Não creio. Pensando nessa questão
e na história de Suzana, lancei no meu site a pergunta:
Você já sentiu inveja da pessoa amada? Por que?
O placar foi o seguinte: 43% das pessoas responderam que SIM
e 57%, NÃO. Algumas das pessoas que declararam sentir
inveja disseram:
“Sinto inveja por ela ser muito mais independente de mim
do que eu dela.”
“Sinto uma inveja saudável, por exemplo porque
ele tem mais estudo do que eu. E mesmo fisicamente está
melhor pelo seu ângulo de visão, mas é muito
boa esta inveja porque ela também nos motiva a crescer
e querer estar cada dia mais próxima do seu ideal, cada
dia mais compatível com seu parceiro.”
“Gostaria de ser tão desinibida quanto ele. Sou
tímida e tenho dificuldade de fazer amigos.”
“Quase morro de inveja pelo fato de ele poder comer de
tudo e não engordar. Tenho de estar sempre atenta porque
já fui muito gorda e agora me cuido, com grande sacrifício.”
“Tudo o que eu queria na vida era ser inteligente e culto
como a minha namorada. Tenho orgulho dela, mas confesso que,
às vezes, fico exasperado quando ela me explica alguma
coisa.”
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“Ela
chega a ser irritante. Está sempre de bom astral e resolve
seus problemas com a maior tranqüilidade. Parece que nada
a deixa mal.”
É possível que as pessoas se encantem por outras
que possuem características de personalidade que elas
não têm e gostariam de ter. A minha dúvida
é se em uma relação entre pessoas tão
diferentes há espaço para trocas verdadeiramente
satisfatórias, ou seja, se é viável uma
vida a dois estimulante.
Quando um homem muito tímido e inseguro se casa com uma
mulher extrovertida, falante, cheia de amigos, o que pode acontecer
à vida deles? À primeira vista só coisas
boas, claro. Ela possui o que falta a ele e, portanto, pode
ajudá-lo a ser mais comunicativo, se soltar mais, conhecer
mais pessoas.
Pense bem, um complementa o outro. Esse encaixe parece ser a
solução perfeita. Além do tímido
e da extrovertida, conhecemos também o decidido e a indecisa,
o animado e a deprimida, o alienado e a sabe-tudo, a corajosa
e o medroso, dentre outros. Sem contar que existem várias
outras diferenças sutis, difíceis de serem percebidas.
Mas na maioria dos casos essa situação é
bem mais complicada do que parece e surgem problemas. O primeiro
deles é a acomodação, que impede o crescimento
pessoal. O indeciso acaba deixando o outro resolver todas as
questões que necessitem de decisão, não
se empenhando para modificar o que não gosta em si próprio.
No amor entre duas pessoas diferentes há um incoveniente
mais sério e bastante comum: a inveja. Há quem
diga até que a inveja nasce imediata e espontaneamente
da admiração. Será que quando admiramos
e nos encantamos tanto por alguém oposto a nós
estamos realmente satisfeitos com o que somos? O invejoso admira
o invejado, desejaria estar em seu lugar, ser como ele é
e não consegue. O pior é quando o invejoso, não
suportando sua própria inveja, passa a depreciar o outro,
justamente os aspectos que gostaria de possuir. Ou então,
o que também ocorre com freqüência, sutilmente
sabota as realizações do parceiro, numa tentativa
desesperada de diminuir seu sentimento de inferioridade.
A inveja não se manifesta na fase do encantamento apaixonado,
por mais diferentes que as pessoas sejam. O que elas vivenciam
é a ilusão da fusão romântica, em
que os dois se transformam num só. Nesse momento não
se deseja nada do outro além do seu amor. Contudo, esse
período inicial de paixão não resiste à
convivência cotidiana. Portanto, quando a inveja surge,
é um sinal de que o encantamento chegou ao fim
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Quando
as palavras ferem
Por
Luciana Bugni
Publicada no Diário do Grande
ABC em 06/02/2005.
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| Quem
pensa que aquele apelido dado pelos colegas de infância
não passa de um leve incômodo, está enganado,
as palavras ouvidas na infância e adolescência pode
representar muito do que a pessoa é quando adulta: de
tanto serem repetidas, as pessoas, estereotipadas de modo errado,
acabam como vítimas de microtraumas. Para conscientizar
que as palavras podem machucar, a psicóloga Magda Sant´Anna
Cabral Pearson acaba de lançar Pau Pau, Pedra, Pedra.
As Palavras Não me Ferirão... e como Ferem! (Editora
Livro Pleno, 70 páginas, R$ 18), título tirado
de uma cantiga escocesa.
“As pessoas ficam dentro de um tipo de bolha, escondidos
de si, após tanto ouvirem palavras agressivas, mesmo
que proferidas de forma inocente, formam um tipo de casca que
os impede de se encontrar. Mas, se essa casca for estourada,
lá estamos nós”, diz a autora. A idéia
de escrever o livro surgiu quando Magda percebeu que os pacientes
tinham um vazio que não se resolvia nas sessões
de terapia. A proposta é facilitar o reencontro das pessoas
com o que elas realmente são, que pode ter ficado para
trás por mágoa.Se diz popularmente que é
mais fácil esquecer um tapa ou uma agressão física
do que palavras que causam vergonha e fazem com que as pessoas
se sintam hostilizadas.
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“Quem
tem apelidos quando criança pode se sentir perseguido
quando adulto e ter dificuldades devido aos traumas.’O
perigo maior é que esse tipo de ressentimento não
é levado a sério e os pais não percebem
sua gravidade. “Normalmente a pessoa evita pensar no assunto
que traz vergonha, mas quando esclarece o que incomoda, tem
de resolver: é possível lembrar do fato, de forma
positiva. Há pessoas que têm a estrutura necessária
para fazer isso sozinhas, outras precisam de ajuda terapêutica”,
aconselha.
Escola - As crianças rotuladas como gordinhas ou fraquinhas
se sentem acuadas e passam a agredir os outro colegas. Para
evitar que isso aconteça, é responsabilidade dos
pais conversar e possibilitar que os pequenos tenham boa estrutura
para trabalhar a própria imagem. “Os microtraumas
vão formando feridas ao longo da vida, que ficam expostas
e são facilmente abertas: é preciso cuidar no
início”, alerta. Ao perceber que algum problema
desse tipo está sendo vivenciado pelos filhos na escola,
é importante conversar com a orientação
do colégio e ouvir a criança, que precisa se sentir
a vontade na instituição. |
Como
lidar com a morte
Meu aluno perdeu o pai. Devo tocar no assunto com ele? O que
falar para a turma?
Por:
Marli da Silva
Publicada na Revista Nova Escola – Junho/Julho 2003
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| Discutir
a morte não é tarefa fácil nem para a família
nem para a escola. São raros os pais que educam os filhos
para enfrentar as perdas, como são raras as escolas que
incentivam discussões sobre o tema. Acredita-se que o
tempo se encarregará de ensinar. Não pode ser
assim. É preciso falar que nossa existência é
finita. “Eis uma ótima oportunidade para debater
questões filosóficas e deixar que a turma construa
conceitos como o que é a vida ou a morte”, sugere
a psicóloga Ana Cássia Maturano
O assunto deve ser tratado de forma aberta. Desde os 2 anos,
a criança é capaz de entender a perda: um animal
de estimação que foge, a ausência dos pais
e a morte em desenhos animados. Porém, até os
4 anos ela tem a idéia de que isso é reversível.
O sentimento de angústia é observado nos desenhos
que os pequenos produzem e na maneira como brincam com os colegas
Ao receber o aluno, diga que você sabe que ele perdeu
uma pessoa querida e que está à disposição
para conversar. Acolher e dar carinho são os melhores
remédios nessa hora. Mostre que a morte não é
um castigo, mas um acontecimento natural. Não reduza
a gravidade do momento dizendo que a pessoa agora está
no céu, foi viajar ou virou uma estrela. “Explicações
mágicas impedem que o aluno faça perguntas, criam
angústias e mascaram o problema”, afirma Maria
Helena Pereira Franco, psicóloga e coordenadora do Laboratório
de Estudos e Intervenções sobre o Luto da Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo. E fique
atento nas reações do estudante (veja no quadro
abaixo). Tristeza e queda no rendimento escolar são naturais.
Seja paciente e cautelosa ao cobrar um melhor desempenho.
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Reações
de luto
Após o trauma pela morte de uma pessoa próxima,
a criança ou o jovem pode apresentar mudanças
no seu comportamento. Veja quais são as reações
mais comuns.
Nos
pequenos:
- Queda no rendimento escolar;
- Agressividade e insegurança;
- Euforia e estado de fantasia;
- Tristeza, depressão e medo;
- Excesso ou ausência de sono e fome;
- Sentimento de abandono e culpa;
- Desejo de se isolar;
- Queixas de dores no corpo e de cansaço.
Nos
adolescentes:
- Raiva contra a pessoa falecida, amigos, professores e até
contra si mesmo;
- Confusão mental e desatenção;
- Queda da auto-estima;
- Desinteresse pelos amigos, pelas atividades escolares e pela
vida;
- Pessimismo e sentimento de culpa;
- Ansiedade e crises de angústia;
- Solidão e fadiga;
- Agressividade e uso de drogas e álcool.
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Quando é demais
Todo mundo tem manias. Porém, quando elas se tornam repetitivas
demais, é hora de buscar ajuda médica.
Por Ivanilde
Sitta
Publicada na revista da COOP - Janeiro 2005
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O
designer gráfico Rodrigo Araújo pode estar atrasado, mas
antes de sair de casa nunca deixa de revisar várias vezes se
trancou todas as portas e janelas. Às vezes, mesmo quando já
está dentro do carro, retorna à residência para
fazer a conferência. A secretária executiva Tânia
Rodrigues tem a mesma mania. Já chegou a perder mais de três
horas nesse ritual. Ela tenta se controlar, mas sempre cede à
compulsão de checar tudo novamente por medo de falhar com a segurança.
Sabe o que diferencia um caso do outro?
Para Rodrigo, trata-se de uma simples mania, assim como muita gente
tem o hábito de só levantar com o pé direito, ou
dar três batidinhas na madeira para afastar o azar. São
comportamentos que não comprometem a vida de ninguém.
Para Tânia, porém, é doença, denominada pela
medicina de Transtorno Obsessivo Compulsivo, ou simplesmente TOC, que
atinge hoje 2% da população brasileira.
Classificado como um distúrbio de ansiedade, o TOC está
entre as 10 maiores causas da incapacitação, segundo a
Organização Mundial de Saúde, devido aos prejuízos
emocionais, profissionais e pessoais que acarreta a vida do portador.
Para se ter idéia, de tanto perder tempo com o ritual de verificação
a secretária foi demitida de vários empregos porque chegava
atrasada ao trabalho. Além disso, não consegue segurar
namorado algum porque nunca chega aos encontros no horário marcado.
Enfim, a doença se manifesta quando as manias tornam a pessoa
incapaz para as atividades do cotidiano.
Será
que tenho TOC?
“O TOC se caracteriza pela repetição de gestos,
rituais, pensamentos e atividades que a pessoa sabe que não fazem
sentido, mas não consegue evitar”, explica o neuropsiquiatra
Rubens Pitliuk. Ou seja, você não está predestinado
ao TOC só porque lava as mãos a cada alimento que leva
à boca. Mas certamente engrossa as estatísticas da doença
se é dos que esfregam as mãos com água e sabonete
cem vezes por dia, até ficarem em carne viva, porque receia ter
sido contaminado por vírus e bactérias.
Apesar de conscientes do que os rituais e pensamentos são ilógicos
e infundados, os portadores de TOC não conseguem controlá-los
por temer que algo de ruim possa acontecer se as manias não forem
realizadas. Para se livrar dessa angústia, acabam desenvolvendo
rituais repetitivos (leia quadro), como se, dessa forma, ficassem imunizados
contra o perigo. “No instante em que o TOCX ataca, toda a lógica
cai por terra e a pessoa se comporta como se fosse escrava dele”,
explica Pitliuk.
Uma das facetas mais comuns da doença é exatamente o medo
obsessivo da contaminação. Há pacientes que só
por cumprimentar, encostar em alguém ou simplesmente abrir uma
correspondência são capazes de tomar banhos que chegam
a durar duas horas, utilizando inclusive produtos químicos pesados,
“Atormentado por idéia de ser contaminado, um de meus pacientes
chegou a ficar seis horas no banho”, confirma o psicólogo
Armando Rezende Neto, dando uma idéia dos prejuízos causados
pela doença.
Medo
de quê?
O transtorno é uma combinação de obsessões
e compulsões, cujo pano de fundo é o medo de algo que
ele não controla. Uma das preocupações mais comuns
relaciona-se à possibilidade de falhar e, em conseqüência
disso, ocorrer algum desastre. Por isso, há pessoas que verificam
inúmeras vezes se fecharam a porta ou deixaram o ferro de passar
roupas ligado.
Muitas vezes, porém, a compulsão não tem relação
lógica com a obsessão que a origina. Tem gente, por exemplo,
que precisa alinhar tudo o que vê pela frente ou arrumar as gavetas
do armário ordenadas pela cor para que não aconteça
algo de ruim. São também comuns os
- sujeira ou contaminação;
- duvidas recorrentes;
- simetria, perfeição, exatidão ou alinhamento;
- impulsos ou pensamentos de ferir, insultar ou agredir outras pessoas;
- armazenar, poupar, guardar coisas inúteis ou economizar;
- preocupações com doenças ou com o corpo;
- pensamentos mágicos (números especiais, cores, datas,
horários). |
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chamados
pensamentos catastróficos, como cravar uma faca no peito do
marido quando ele chegar em casa do trabalho, por exemplo. Para fugir
dessa angústia, tem gente que arranca todas as gavetas da cozinha
para não ter acesso à “arma do crime” e
fica verificando a toda hora se realmente elas estão fechadas.
Conheça
as obsessões mais comuns:
Livres
da prisão
Não se sabe ainda as causas exatas da doença, mas pesquisas
e estudos sugerem a existência de uma disfunção
de neurotransmissores em certas regiões do cérebro, explica
o dr. Rubens Pitliuk. Pode haver uma predisposição familiar,
pois não é raro que várias pessoas de uma mesma
família apresentem os sintomas. O que não quer dizer que
seja hereditário e nem provocado pela educação.
Seja como for, o lado bom da história é que existem tratamentos
eficazes para o TOC. Porém quem sofre com o problema pode levar
anos para buscar ajuda médica, seja pela vergonha de expor os
sintomas ou por medo de ser tachado de louco. Mas já foi pior.
Segundo o psicólogo Rezende Neto, como atualmente existe mais
divulgação da doença e seus sintomas, o número
de portadores de TOC que vêm recorrendo aos médicos cresceu
bastante.
Os tratamentos mais avançados são o uso de antidepressivos
e a psicoterapia do tipo cognitiva comportamental. A medicação
age no cérebro elevando os níveis de serotonina, neurotransmissor
responsável pela sensação de bem-estar. O desaparecimento
dos sintomas é gradual, podendo progredir ao longo de vários
meses. O retorno é ainda melhor se o paciente investir na terapia.
O portador recebe informações sobre a doença e
os recursos e técnicas disponíveis para vencer os sintomas.
Depois, passa a aplicar esses recursos em seu ambiente de trabalho ou
domicílio.
Fique
de olho
Enquanto os antidepressivos precisam de uma a três semanas para
combater a síndrome do pânico e de três a seis semanas
para fazer efeito na depressão, os portadores de TOC precisam
esperar de seis a doze semanas para observar melhoras. Por isso, não
interrompa o tratamento se não sentir qualquer efeito nos primeiros
tempos.
Algumas vezes, o primeiro remédio não produz o resultado
esperado. Não desanime, pois basta trocar a medicação.
Na maioria dos casos é perfeitamente possível levar uma
vida completamente normal com a manutenção do medicamento.
Resistir ao TOC é fundamental para o tratamento. Quanto mais
você conseguir controlar as manias, melhor. Sem essa força
de vontade, nenhum tratamento funcionará.
O que é TOC?
- Lavar as mãos 10 vezes por dia até ficarem vermelhas
e em carne viva
- O ritual de fechar e tornar a fechar a porta antes de sair de casa
para o trabalho por meia hora.
- Guardar por décadas jornais ao acaso, sem nenhum sistema de
arquivamento ou busca.
- Sentir a incontrolável necessidade de dar um número
determinado de batidas leves na porta antes de entrar.
- Gastar horas todos os dias colocando em ordem alfabética todos
os itens do armário da cozinha e organizando as roupas dentro
das gavetas por cor, por exemplo.
O que não é TOC?
- Lavar as mãos antes de cada refeição ou sempre
que leva algum alimento à boca.
- Todas as noites, verificar e tornar a conferir se as portas e janelas
estão fechadas.
- Uma mulher que dedica todo seu dinheiro e tempo livre para montar
sua coleção de arte.
- Um músico que repete uma passagem difícil várias
e várias vezes até obter a perfeição.
- Um executivo que não deixa seu escritório até
que sua mesa esteja limpa e suas gavetas, organizadas.
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Repetência:
a grande culpada
Problemas de aprendizagem e evasão atingem alunos que cursam novamente
a mesma série Por:
Paola Gentile
Publicada na Revista Nova Escola – Outubro 2003
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Os
números impressionam: o Brasil tem cerca de 27,5 milhões
de habitantes entre 7 e 14 anos, mas registra 34,7 milhões de
matrículas no Ensino Fundamental, conforme Censo Escolar 2003.
A diferença é formada por jovens acima dos 15 anos que
estudam em séries não compatíveis com a sua idade.
A distorção idade-série preocupa educadores, embora
venha caindo nos últimos anos (veja gráfico e tabela com
os indicativos estaduais e por série).
A principal causa dessa situação é a repetência.
Além de causar sérios problemas no processo de aprendizagem,
a reprovação – ou a simples ameaça dela –
é ainda a principal causa da evasão. A entrada tardia
na escola hoje não é o principal motivo da distorção,
pois com a criação do Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização
do Magistério (Fundef), em 1996, as secretarias tentam criar
vagas para todos, pois recebem o recurso de acordo com o número
de matrículas.
Mais do que um problema econômico – gasta-se cerca de 5
bilhões de reais por ano para atender esses alunos, o suficiente
para manter o Fundeb (fundo de toda a Educação Básica)
pelo mesmo período, com gasto de mil reais por aluno –,
a distorção impede crianças e adolescentes de avanças
em sua trajetória educacional. Quem repete tem desempenho cada
vez pior e o fato de ter repetido pouco acrescenta à sua aprendizagem.
Vai apenas rever os mesmos conteúdos, e ao lado de colegas mais
novos, que nem sempre compreendem a situação. “O
sentimento de fracasso faz com que os jovem encare os estudos como uma
fonte de sofrimento e crie bloqueios em relação à
aprendizagem”, afirma Magda Querino, mestra em lingüística
e técnica para projetos educacionais do Centro de ensino Tecnológico
de Brasília (Ceteb), instituição responsável
pela elaboração de um dos programas de correção
de fluxo oferecidos pelo Ministério da Educação
(MEC).
Caminho
aberto pela LDB
Depois de a própria criança, a família e a condição
social terem sido apontados como culpadas pela reprovação,
descobriu-se que o nó estava também na escola e na incapacidade
dos sistemas de atender a diferentes necessidades de aprendizagem. A
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB),
de 1996, rompeu com a cultura da
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repetência,
abrindo a possibilidade de haver avanços para etapas seguintes.
Surgiram ferramentas como a progressão continuada e as classes
de aceleração.
Esta última é a mais adorada por estados e municípios,
pela rapidez dos resultados. Consiste em reunir em uma mesma turma,
durante um ano, estudantes em defasagem e aplicar um programa para
os alunos reconquistarem a confiança em sua capacidade de aprender.
A principal crítica a essa iniciativa vem de educadores que
não compactuam com uma pedagogia centrada somente na aquisição
de habilidades e no resgate da auto-estima. Alegam esses críticos
que os programas de aceleração deixaram os conteúdos
aligeirados, não oferecendo base para o jovem continuar a aprender.
“Não adianta mudar as estatísticas se não
forem construídas condições para o aluno apropriar-se
do conhecimento sistematizado para tornar-se ele próprio um
produtor de conhecimento”, afirma Francis Guimarães Nogueira,
da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Na opinião
da pesquisadora, que analisou com Lilian Borges o programa de correção
de fluxo de 5ª a 8ª série do Paraná, os estudantes
deveriam caminhar em sua própria velocidade no processo de
aprendizagem. A Secretaria Estadual de Educação do Paraná
interrompeu o programa de aceleração este ano porque
uma parcela considerável dos “acelerados” abandonou
os estudos no Ensino Médio, por não conseguir acompanhar,
e para que fosse estudada uma forma de avançar sem desrespeitar
o tempo de aprendizagem de alguns estudantes.
Em São Paulo, os egressos das turmas de aceleração
que foram analisados pelo Sistema de Avaliação e Rendimento
Escolar da rede estadual demonstraram o mesmo desempenho dos colegas
que vieram de classes regulares. As pesquisadoras da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo Vera Placco, Laurinda
de Almeida e Marli Afonso de André, avaliaram positivamente
as classes de aceleração da rede estadual paulista.
As três apontaram que as condições dadas a essas
classes – turmas menores, conteúdos pertinentes, formação
de profissionais permanentemente acompanhados em seu trabalho –
deveriam ser estendidas para todo o sistema.
As redes que reduziram a distorção investiram na capacitação
de toda a equipe pedagógica, conseguindo o compromisso de todos
com o sucesso das turmas.
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| Sucesso
na aprendizagem fortalece o aluno para a vida
Por:
Guiomar Namo de Mello
Publicada na revista Escola – Abril 2005
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Estudos
recentes na área da psicologia e da sociologia estão desafiando
a velha idéia de que os traumas e riscos levam necessariamente
ao desenvolvimento de doenças mentais ou emocionais. Com certeza
existem os que têm dificuldade de se recuperar e deixam-se destruir
pelos acontecimentos ruins. Por outro lado, todos conhecemos pessoas
que aprenderam a lidar com as adversidades e até se tornaram
mais fortes depois de uma situação dolorosa. São
aquelas que sabem fazer limonadas dos limões que a vida lhe reserva.
As ciências humanas estão chamando essa capacidade de sacudir
a poeira e dar a volta por cima de resiliência, termo originalmente
utilizado na física para descrever a capacidade que alguns corpos
apresentam de retornar à forma original após terem sido
submetidos a uma deformação elástica.
Ensinar o aluno a ter uma postura positiva e recobrar-se diante de situações
difíceis talvez seja um dos objetivos mais importantes da escola.
Principalmente quando ela atende – como é o caso da escola
pública brasileira – alunos que por sua origem pobre poderão
encontrar mais dificuldades para realizar um projeto de vida. Essa meta
será encontrarão aquilo de que mais precisam: vivenciar
experiências de sucesso, que lhes mostrem o quanto são
capazes. Dosar confiança com prestação de contas
e acolhimento com autonomia é difícil, mas não
impossível.
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|
alcançada
mais facilmente se a escola for capaz de proporcionar para todos experiências
bem sucedidas de aprendizagem.
Educar para a resiliência não é inventar programas
especiais ou assistenciais. É fazer bem o que a escola tem
de fazer: ensinar a todos, em clima de acolhimento e confiança.
Assim, crianças e jovens
Uma atitude bastante eficaz é investir nos vínculos,
o que significa relacionar-se melhor com os alunos e abrir possibilidades
para que cresçam entre eles laços de amizade. Ajuda
muito também estabelecer limites, com a negociação
de regras claras que sejam válidas tanto para adultos quanto
para crianças e jovens. Vale a pena inserir no currículo
a aprendizagem não apenas de conhecimentos mas também
das atitudes que são necessárias para a vida, como a
cooperação, a ação positiva para a resolução
de conflitos e de problemas, a postura firme de resistência
e de segurança para a tomada de decisão. Para isso,
crie oportunidades para que todos participem e tenham responsabilidade.
O educador também deve ficar sempre atento para impedir qualquer
atitude de zombaria, escárnio ou agressão verbal: as
vítimas desse tipo de agressão são mais sujeitas
a ter postura menos ativa diante dos problemas. Não deixe de
estabelecer expectativas realistas de desempenho, respeitando a capacidade
do grupo e sempre apostando que eles conseguirão ir além.
Para tanto, use todas as chances que tiver para oferecer apoio e encorajamento
aos alunos. Eles contam com você.
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| Como
lidar com o climatério
Por:
Joel Rennó Jr. - coordenador geral do Pró-Mulher, Projeto
de Atenção à Saúde Mental da Mulher do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
Publicada no Jornal Diário de São Paulo – 16 de
Agosto de 2005
|
Da
mesma forma como o psíquico pode refletir impactos da condição
biológica em processo de mudança, não é
possível negar o caráter e importância dos significados
atribuídos, por cada mulher; a sua vivência do fenômeno
climatérico e menopáusico, enquanto anúncio e encerramento
de sua vida reprodutiva.
Para muito além do biológico, este período comporta
representações, deslocamentos, simbolizações
e ressignificações importantes, seja quando se pensa no
desenvolvimento feminino, seja quando se enfoca a psicopatologia. Assim,
e interessante compreendermos a subjetividade feminina neste momento
de vulnerabilidade.
Lax (1982) considerou a crise psíquica que a mulher experimenta
durante a fase climatérica à luz do seu senso de integridade
corporal, seu senso de funcionamento corporal, sua auto-imagem e suas
tarefas vitais e interesses egóicos (ao ego).O desequilíbrio
ocorreria em todas estas áreas do funcionamento psíquico.
As mulheres responderiam ao climatério de diferentes maneiras,
algumas lidando em direção a uma nova e saudável
integração, outras rumando em direção à
patologia. A perda do controle sobre o que ocorre com seu corpo faz
reavivar fantasias e tendências regressivas, sentindo-se exposta
e sem defesa contra sintomas como ondas de calor e
suores,
que inclusive a mortificam, pois revelam seu estado menopausal sem
que possa ter controle sobre seu corpo e suas manifestações,
promovendo, por vezes, interferência no sentimento de integridade
corporal e funcionamento harmonioso, resultando em decréscimo
do senso de bem-estar; e ocorrendo crises emocionais significativas.
Além do mais, a perda da capacidade reprodutiva para as mulheres
de várias décadas atrás, sob a supremacia da
maternidade como função principal em suas vidas, poderia
resultar em reação depressiva. Alguns aspectos são
observados durante os atendimentos dessas mulheres:
-
Mudanças na perspectiva cronológica: a relação
com os pais se atualiza na relação com os filhos jovens
e adolescentes, mas com papéis invertidos. (exemplo: cuidados
com os pais idosos)
- Reversão nos ritmos exterior e interior de transformação:
agora são os filhos que crescem rapidamente e os pais que envelhecem
no mesmo ritmo. Luto pela consciência da natureza efêmera
da vida humana.
- Limites da criatividade: percepção dos próprios
limites do passado e a restrição para as realizações
no futuro. Outras pessoas, provavelmente, ultrapassarão estas
limitações, colocando em pauta a questão do amor
e do ódio para consigo e para com os outros.
|
|
-Identidade
do ego na perspectiva do tempo: o novo conhecimento da meia-idade
sobre as próprias limitações consolida a identidade
do ego, diferentemente do passado. Aceitar a si mesmo é aspecto
importante da maturidade emocional, com reflexos em todos os relacionamentos.
- Ajuste de contas com a agressão exterior: enfrentamento realístico
dos ataques que permeiam o ambiente adulto, sem explorá-los,
sem negá-los, sem submeter-se ou por eles ser corrompido. Aceitação
do fato de que a responsabilidade final e para consigo mesmo.
- Perda, luto e morte: o enfrentamento da perda dos pais, irmãos,
parentes e amigos somam-se às próprias manifestações
de envelhecimento, reforçando a consciência do possível
adoecer e morte pessoal. A aceitação de perdas e fracassos
pessoais deve permitir a sensação de contar com recursos
suficientes para a aceitação de si mesmo e a reconstrução
de uma vida significativa, tendo por base o narcisismo normal.
- Conflitos edipianos: nova reativação do Complexo de
Édipo seja pelo crescimento dos filhos, pelas experiências
concretas na vida social ou pelas vivências com os pais enfraquecidos
rumo à morte. Com a descrição da "crise
da meia-idade" e as tarefas desenvolvimentais próprias
a este período do desenvolvimento, ficam pontuadas características
marcantes às quais homens e mulheres devem fazer face quando
atingem o ponto médio da vida, vivenciando, pessoalmente, estas
dificuldades em maior ou menor grau. Conquanto, a conjugação
desta crise psíquica com as contingências associadas
ao climatério e menopausa, faz com que esta fase do desenvolvimento
seja ainda mais complexa para as mulheres, devido à mútua
influência de fatores de ordem biológica, psíquica
e social. Assim, se o atendimento médico e imperativo nesta
fase, o psicológico pode ser imprescindível, pois não
há na medicina medicamento de metabolização e
reposição que processe estas vivências e significados
associados. Assim, a prevenção marca presença
enquanto enfoque importante para a mulher que atinge o meio da vida
e que enfrenta fase de vulnerabilidade – com freqüência
solitariamente. Como médico do ''Pró Mulher" pude
identificar, na grande maioria destas mulheres, necessidades de mudanças
mais profundas: a elaboração do luto pelas mudanças
e perdas; revitalização de recursos pessoais adormecidos;
início da superação criativa de golpe em sua
feminilidade representado pelo climatério e menopausa; aceitação
de desafios que colocam à prova sua capacidade e estrutura
emocional; descoberta de possibilidades pessoais que só o maior
desenvolvimento emocional pode fazer frutificar; início da
concretização de projetos indicativos de maior independência
afetiva e financeira; maior amadurecimento da condição
de separação conjugal e encorajamento para a tomada
de decisões importantes na vida profissional.
|
| O
sexo acaba no casamento?
Por:
Moacir Costa - medico psicoterapeuta, autor do Iivro "Mulher -
A conquista da liberdade do prazer" (Ediouro) e coordenador do
Projeto Amar Bem
Publicada no Jornal Diário de São Paulo (Idoso e Bem-Estar)
– 16 de Agosto de 2005
|
|
O
casamento se constitui numa importante fonte de valorização
afetiva, amorosa e mesmo social.
Com o passar dos anos, infelizmente, muitos casais passam a se aposentar
também na vida sexual. É claro que esse comportamento
e observado com maior freqüência nos casais que já
estão juntos há 20, 30 ou 40 anos. Eles demonstram ternura
e carinho entre si, mas as pistas eróticas, que antes incendiavam
a relação como festas, bailes, conversas na intimidade,
beijos mais prolongados, já não acontecem.
Comportamento
Socialmente e muito fácil identificar esses casais. Eles pouco
conversam, preferem assistir TV em sofás separados, o beijo só
ocorre na chegada ou despedida, na base do selinho. Em restaurantes,
se mantém distantes, ainda que estejam um do lado do outro.
Quando ocorre o sexo mensal, o componente ativador é o estimulo
apenas físico ou biológico, já que a emoção
e o desejo são baixos e não existe clima para namoro e
sensualização do contato. Os sintomas decorrentes da menopausa
devem ser observados pelo ginecologista e a reposição
estrogênica, na maioria das mulheres, necessita ser realizada.
Quando a redução do desejo e acentuada a avaliação
da testosterona e necessária, mas a sua reposição
deve ser mais cuidadosa, e os benefícios são significativos.
|
|
Impotência
Com os homens, após os 50/60 anos, 50% deles ou mais apresentam
falhas de ereção que tendem a se agravar com o surgimento
de doenças como diabetes, hipertensão, tabagismo, e
estados depressivos etc.
O uso de medicamentos para recuperação do vigor e do
entusiasmo sexual do casal, como o Viagra e Levitra, de ação
mais curta (4 a 6 horas), e mais recentemente o Cialis, (com ação
mais prolongada, ate 36 horas) são indicados. É importante
lembrar que o estímulo da parceira e sempre necessária
e as substâncias à base de nitratos são contra
indicadas.
Busca do prazer
Por que não voltar a sair para passear e aproveitar o intenso
prazer desses momentos? Outros, que sempre adoraram ir ao cinema,
ou mesmo caminhar de mãos dadas, poderão voltar a fazer
coisas juntos como antes faziam. A verdadeira parceria e amizade voltam
a fazer parte do cotidiano e só assim irão encontrar
formas de retomar a vibração do relacionamento conjugal.
Vale a pena investir mais na vida a dois para se ter uma sexualidade
mais ativa e prazerosa. Tudo isso é um aspecto importante também
para conquistar um envelhecimento saudável.
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Ensinar
bem é... Saber elogiar Publicada
na Revista Escola – outubro de 2003
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| A
qualidade do elogio não está nas palavras mas na maneira
como ele é feito. E isso na escola pode ter sérias conseqüências.
Em
sala de aula, elogios demais ou de menos podem ser igualmente prejudiciais
para o estudante. Autora de uma tese sobre o assunto, Telma Vinha, de
Campinas (SP), concluiu que esse discurso de admiração
pode ser ouvido em duas categorias: o valorativo e o descritivo.
O valorativo tem um caráter destrutivo, independente de conter
uma crítica positiva ou negativa. A frase “Você é
muito inteligente” é um exemplo. Nela está contido
um juízo de valor. Esse tipo de exaltação, de acordo
com Telma, gera dependência. A criança passa a fazer as
coisas com o objetivo de receber a aprovação das pessoas
e vai perdendo a capacidade de se auto-avaliar. Imagine que um aluno
muda uma mesa de lugar. Se em vez de
afirmar “Você é muito forte” você disser
“Obrigada, eu não conseguiria carregar isso sozinha”,
o julgamento sobre ser forte ou não fica a cargo dele. O estudante
que tem sempre suas ações enaltecidas de forma valorativa
pode ficar com receio de desapontar os outros. “é uma carga
muito grande ser inteligente ou bem-comportado durante o tempo todo”,
considera a pedagoga.
Descrever
pontos fortes
Já o elogio descritivo é benéfico e contribui para
que o estudante adquira consciência de sua própria evolução.
Expressões como
|
|
“Parabéns.
Seu texto está muito bem redigido. Você conseguiu captar
bem o tema proposto” podem ser ditas em particular ou de maneira
que a classe ouça, pois a turma aprende com os erros e acertos
de um colega.
“ser descritivo dá trabalho para o professor”, admite
Telma. Ela explica que é mais fácil escrever palavras
como “lindo” ou “parabéns” do que indicar
os pontos fortes presentes em uma atividade. Se a classe for numerosa,
você pode fazer essas intervenções em alguns trabalhos
apenas, em cada aula. Por meio de um revezamento, ao final de determinado
período todas as crianças terão suas lições
avaliadas desse modo.
Para quem não está acostumado a atuar assim, Telma dá
uma sugestão: “Faça de conta que está descrevendo
o texto analisado para alguém que não o leu, ou o desenho
ou projeto para alguém que não o viu”.
Três
razões para elogiar
- Por iniciativa: as boas idéias têm de ser valorizadas
mesmo que o produto final seja ruim. Em nossas escolas esse tipo de
elogio não é comum.
- Por esforço: o empenho das criança precisa ser sempre
reconhecido, caso contrário ela poderá se sentir desestimulada
no futuro.
- Por resultado: há alunos que aprendem com mais facilidade que
os outros. Fique atento para não valorizar somente os bons resultados,
já que todos precisam de elogios.
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O
que você espera deles?
Se só de olhar você já deduz que este ou aquele aluno
não vai aprender, pode apostar: ele não vai mesmo. Para
evitar que a profecia se realize, é preciso superar essa primeira
impressão. E acreditar que todos podem ter sucesso.
Por Meire
Cavalcante
Publicado na revista Escola, edição abril de 2005
|
Suponha que você se inscreveu em um curso de dança. Na
primeira aula, o professor ensina os passos básicos e você,
que anda com o esqueleto enferrujado, não tem um desempenho dos
melhores. Ele percebe sua dificuldade e faz aquela cara de quem diz:
“Você não leva o menor jeito”. Nas aulas seguintes,
o professor não lhe dá muita atenção nem
se empenha nas explicações. Mas não poupa elogios
aos que parecem ter nascido nascido para dançar. Como você
se sentiria em uma situação como essa? Provavelmente se
julgaria um fracasso, sairia do curso ou desistiria de dançar.
Agora, tente imaginar o peso dessa situação nos ombros
de seus alunos, sejam eles crianças ou adolescentes. Desanimador,
não?
Esse pré-julgamento do professor, que leva muitas vezes ao fracasso
dos estudantes, tem um nome pomposo: profecia auto-realizadora –
fenômeno mais freqüente do que se imagina e que provoca sérias
conseqüências. É verdade. A forma como o aluno é
visto e tratado por quem deve ensiná-lo pode virar uma bola de
neve. Ao acreditar que a criança é incapaz, o professor
provoca nela uma adaptação às baixas expectativas.
Feito isso, o aluno realmente não aprende. Para que todos tenham
a mesma oportunidade de se desenvolver na escola é essencial
refletir sobre a sua postura diante da turma. Depois, convercer-se de
que todos são capazes de avançar. Assim, você não
só combate o fracasso escolar mas evita que talentos sejam desperdiçados.
Reconhecer
preconceitos é o começo
É consenso entre estudiosos da profecia auto-realizadora que
o professor deve se auto-avaliar sempre. “Todos somos preconceituosos
e isso não é defeito. Construímos nossos preconceitos
com base em experiências familiares e sociais”, afirma a
psicopedagoga Carmem Maria Andrade, professora da Faculdade Metodista
de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
O preconceito nada mais é que um conceito antecipado sobre algo.
E nem sempre ele é negativo. Quer um exemplo? Quando você
diz que alguém é muito bom no que faz porque se graduou
em certa universidade, significa que você criou um conceito antecipado
de que lá só se formam bons profissionais. “Os pré-julgamentos,
no entanto, não podem ser usados para machucar ou prejudicar
alguém”, alerta Carmem. Isso ocorre, por exemplo, ao crer
que um jovem que mora na favela não tem a mesma capacidade que
o de classe média.
Em 1987, Carmem realizou uma pesquisa com 100 professores de escolas
municipais, estaduais e particulares. “Observando o trabalho dos
educadores, identifiquei 22 tipos de preconceito manifestados em relação
às crianças”, diz ela. A origem socioeconômica,
a estrutura familiar e até o vestuário eram motivos de
discriminação. Dez anos mais tarde, ela localizou 98 dos
professores e repetiu o procedimento. “Na Segunda vez, identifiquei
24 tipos de preconceito.”
A professora concluiu que ainda é preciso discutir muito o assunto.
“De nada adiantam grandes campanhas contra o preconceito na mídia
se, na convivência diária, não mudamos nossa prática”,
afirma. Carmem conta que a manifestação mais freqüente
nas duas pesquisas era a discriminação racial. Certa vez,
ela ouviu uma professora perguntando para outra quantos negros tinham
em sua sala. A resposta foi impactante: “No primeiro bimestre
eram três, mas consegui ficar só com um!”
O
retrato do aluno vem da avaliação
Além dos aspectos físicos, as atitudes da garotada também
estimulam os professores a formam opiniões deturpadas. Crianças
e jovens manifestam comportamentos que, sem dúvida, refletem
um pouco de sua personalidade, mas que de forma alguma determinam suas
capacidades cognitivas. Durante uma pesquisa realizada em escola pública
de São Paulo, a psicopedagoga Maria Cristina Mantovanini pediu
aos professores que separassem os alunos bons dos ruins. Resultado:
cerca de 40% das crianças foram consideradas ruins. “Avaliei
todas elas e constatei que nenhuma tinha problemas cognitivos. O desenvolvimento
intelectual das crianças dos dois grupos era semelhante. Isso
deixou muitos professores espantados.” Para Maria Cristina, índices
altos como esse são indícios de que as estratégias
em sala devem ser revistas. “Ao separar bons e ruins, a maioria
não utilizou critérios pedagógicos e cognitivos,
limitando-se apenas a observar as atitudes.” Se uma criança
chega suja, fala demais ou é agressiva não significa que
é incapaz de aprender. Foi o que descobriu Ana Lígia Malaquias.
Há alguns nos, ela lecionava para turmas de aceleração
em uma escola pública no Rio de Janeiro. As crianças traziam
um histórico de fracasso e eram vistas como casos perdidos. Entre
elas estavam cinco irmãos, o terror da escola. Eles falavam muito,
eram indisciplinados, tiravam notas péssimas e nem certidão
de nascimento tinham.
Duas garotas dessa família foram para a turma de Ana Ligia. “Eu
tinha ouvido comentários ruins sobre o comportamento e rendimento
dos irmãos. Quando entrei na sala, já tinha criado as
piores expectativa em relação às meninas”,
conta. Para Júlia e Karina*, a atitude de Ana Ligia não
era novidade. Afinal, já carregavam o estigma de péssimas
alunas. Elas nunca participavam das atividades, eram muito tímidas
– às vezes agressivas – e não faziam amizade
com ninguém.
Certa vez, durante uma aula de leitura, as meninas sumiram. As duas
estavam atrás do teatrinho de fantoches: uma com um livro no
colo e um boneco na mão; a outra, prestando atenção
na história que a irmã contava. “Naquele dia, percebi
que, mesmo faltando às aulas, elas tinham entendido a proposta
e podiam participar como os outros. Só faltava uma oportunidade,
que eu não estava dando”, admite. Hoje, quando Ana Ligia
pega uma nova turma, primeiro conhece bem e depois lê os históricos
e conversa com os antigos professores. “Assim, evito pré-julgamentos
injustos.”
|
|
Atitudes
que caracterizam a profecia
Durante sua pesquisa, Maria Cristina ouviu relatos de crianças
conformadas com o fracasso e que acreditavam na incapacidade atribuída
a elas. “Muitas falavam que não davam para os estudos ou
que a professora dizia que não conseguiriam aprender.”
A pesquisadora conta que 84% dos estudantes considerados ruins chegavam
para conversar com ela apreensivos, tinham dificuldade de falar de si
mesmos e medo de errar. Já os avaliados como bons eram curiosos
e mostravam muita desenvoltura e confiança ao se expressar.
Apesar de alguns professores serem explícitos, Maria Cristina
acredita que, para condenar um aluno, não é preciso dizer
que ele não vai aprender. Basta, por exemplo, ignorar quando
ele tenta dar uma resposta ou nunca chamá-lo à lousa para
uma atividade. “Se a criança tenta participar e é
criticada, ela não vai tentar uma Segunda vez, acreditando que
todos sabem mais do que ela”, explica. Esse tipo de conduta do
professor não prejudica apenas o rendimento e a autoconfiança
do aluno. Pode também minar suas chances de se socializar.
Para a professora Carmem, a escola estimula a competitividade de tal
forma que, quando a turma observa a atitude discriminatória do
professor, passa a ridicularizar o colega que tem dificuldades. “Ninguém
quer ser amigo daquele aluno. Muito menos oferecer ajuda a ele para
resolver problemas”, afirma. Assim, cria-se na sala de aula um
ambiente propício para a desigualdade, em que o estudante excluído
passa a ser responsável pelo fracasso. Essa dinâmica pressupões
que só não aprende quem não quer ou não
se interessa.
A atitude do professor em sala é tão poderosa e facilmente
percebida pela turma que não é possível escondê-la.
Por isso, não adianta combater o problema afirmando – mesmo
sem acreditar – que uma criança vai conseguir se sair bem.
Ao contrário, essa estratégia pode ser tão negativa
quanto a profecia auto-realizadora. São dois os motivos: ter
um sentimento pelo aluno e demonstrar outro pode gerar nele um grande
desconforto; e, se ele aceitar essas afirmações positivas,
pode se decepcionar ao criar expectativas sobre si que não são
reais.
O professor pode mudar a situação
O pessimismo em relação aos estudantes às vezes
é tão marcante que, ao encontrar um professor com uma
postura diferente, muitos até se admiram. “Quando entrei
sorrindo pela primeira vez em uma sala considerada problemática,
um aluno me perguntou se eu iria ficar com eles de verdade”, conta
Lael Keller, professora da Universidade do Estado de Minas Gerais, em
Passos. Em 1995, ela dava aulas de Educação Especial na
Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) –
onde hoje é supervisora - , quando foi convidada a assumir uma
turma de 1ª série em uma escola pública regular.
O curioso é que não havia nenhuma criança com deficiência
na classe – e Lael logo percebeu isso. “Fui convidada por
minha experiência em Educação Especial. A escola
já tinha tentado de tudo com aquela turma”, lembra Lael.
O grupo era um retrato do fracasso – e a culpa, atribuída
às crianças. Na sala encontravam-se todos os repetentes,
os indisciplinados e os que tinham dificuldades de aprendizagem. Sem
avaliação e propostas pedagógicas adequadas, eles
eram imprudentemente diagnosticados como portadores de distúrbios
mentais e de comportamento.
Apesar de não achar adequado reunir todos em uma mesma turma,
a professora buscou a melhor maneira de alfabetizá-los e de tirar
das costas deles o peso de afirmações inconseqüentes
como “você é burro”. Os pais, cansados das
reclamações, já acreditavam na burrice dos filhos
e nem tentavam ajudá-los. “Por isso, dava deveres que os
alunos podiam resolver sozinhos. Era emocionante ver o orgulho que tinham
ao entregar a tarefa pronta no dia seguinte”, revela Lael.
Ela propôs atividades lúdicas e dinâmicas fora da
sala e trabalhou com jogos e projetos, sempre observando as dificuldades
e analisando o conhecimento prévio de cada um. Com isso, podia
planejar as atividades mais adequadas. As melhores surgiram a partir
do meio do ano. Os pais, surpresos com a reviravolta na vida escolar
das crianças, enchiam a professora de presentes. “Eu me
sentia mal com os agrados, pois ensinar era apenas a minha obrigação.”
Ao mesmo tempo que não acreditam nos alunos, muitos professores
também não confiam na própria capacidade de ensinar.
Maria Cristina Mantovanini percebeu que, ao encaminhar uma criança
ou adolescente a especialistas, como o médico ou o psicólogo,
muitos professores se sentiam diminuídos, como se o magistério
não desse conta do recado. Em seu livro Professores e Alunos
Problema: Um Círculo Vicioso, ela afirma que “o professor
que só consegue enxergar no aluno a falta – a dificuldade,
aquilo que ele não sabe e deveria saber – faz o mesmo consigo
próprio”.
Lael já recebeu na Apae muitas crianças com diagnósticos
errados. As escolas encaminhavam os estudantes para se livrarem dos
“problemas”. O professor deve entender que casos de saúde
são resolvidos por um médico, que questões emocionais
podem ser amenizadas por um terapeuta e quem domina o processo de aprendizagem
é ele”, ressalta Maria Cristina. Ela destaca que a consciência
do valor do magistério aumenta a confiança dos educadores
na própria capacidade e também na dos estudantes. A prova
está na conclusão de sua pesquisa. Todos os alunos que
antes haviam sido considerados ruins foram aprovados. “Isso só
aconteceu porque os professores, nas longas reflexões que fizeram,
perceberam que podiam intervir no processo de aprendizagem com base
nos conhecimentos de sua profissão.”
*Os
nomes foram trocados para preservar a identidade das estudantes
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Psicoterapia
remédio para a alma Por
Maeli Prado – Publicada na Revista da Coop – edição
Fevereiro de 1999
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“Procure
um psicoterapeuta”, recomendou Carol, ao ouvir Rosa despejar sua
insatisfação com o trabalho, amor, amizades, enfim, coma
vida. Como resposta à sua sugestão, recebeu da amiga um
olhar indignado: “Além de tudo você acha que sou
louca?”
como Rosa, muitas pessoas ainda associam palavras como psicólogos,
psicologia ou análise apenas a distúrbios comportamentais
seríssimos. Ou, então, para resolver situações
emocionais tão complicadas que só mesmo apelando para
esse último recurso.
Pena que muita gente ainda pense assim. Esse lugar impede muitas pessoas
de procurar ajuda quando estão com algum tipo de sofrimento emocional.
Nem precisa ser um grande drama. Quantos, por insegurança sofrem
e provocam sofrimento por causa do ciúmes exagerado, por exemplo?
Então, por que não tentar descobrir de onde vem esse sentimento
e como lidar melhor com ele, em vez de continuar frustrando-se a cada
rompimento?
A psicoterapia nos ajuda a entender nossas reações frente
a certas situações, como a que citamos, e nos auxilia
também a recobrar o equilíbrio emocional. Ao contrário
do que muita gente pensa, a psicoterapia pode ser também um meio
de conhecer mais a respeito de si mesmo.
Por
que sou assim?
Saber lidar com as emoções do dia-a-dia, entrar em contato
com os sentimentos mais profundos, conhecer mais sobre a própria
personalidade. Vira-e-mexe nos vemos diante dessas questões.
Perguntas como “Estou fazendo realmente o que quero da minha vida?”
ou “Será que o tempo está passando e não
estou aproveitando tudo o que posso?” ou “Por que não
consigo falar claramente o que sinto?”, por exemplo, muitas vezes
nos tiram o sono.
Para complicar mais um pouco, a rotina, a falta de dinheiro, os relacionamentos
difíceis, entre outras razões, nos fazem esquecer nossas
qualidades e pontos fortes e nos sentimos sem saída ou capacidade
para resolver certos impasses.
Envolvidos nas dúvidas e dores emocionais, também deixamos
de lado coisas que nos dão prazer, como conversar com amigos,
namorar com sossego ou ouvir uma boa música. É aí
que pode entrar a terapia. Com ela, pode-se aprender a lidar melhor
com os próprios sentimentos, ajudando a clareá-los e a
deixar de lado tristezas inúteis, resgatando o prazer. Porém,
é bom saber que a psicoterapia não e uma mágica
para a felicidade eterna, nem dará a solução instantânea
para todos nossos problemas. Entretanto, conhecendo melhor seus próprios
sentimentos e reações, com certeza ficará muito
mais fácil enfrentar os problemas que surgirem.
Qual é a melhor para mim?
Assim como outras formas de tratamento, a psicoterapia também
oferece vários caminhos, conhecidos como linhas terapêuticas.
É importante saber um pouco sobre elas, antes de escolher. Outra
coisa: o vínculo entre o profissional e paciente deve ser levado
em conta na hora de se decidir fazer psicoterapia. Se no primeiro contato
não houver simpatia e, mais do que tudo, confiança, deve-se
procurar outro profissional com quem você se sinta mais à
vontade. O número de sessões por semana deve ser estabelecido
entre paciente e terapeuta. Veja agora algumas das linhas mais importantes
da psicoterapia.
- Psicanálise: criada e desenvolvida por Sigmund Freud,
a psicanálise tem como objetivo trazer à tona o que está
no inconsciente, a parte mais profunda escondida na mente. Através
da interpretação de sonhos
e livres associações, o psicanalista poderá entendê-lo
melhor e ajudá-lo no auto-conhecimento. A psicanálise
dá extrema importância às questões da sexualidade.
O comportamento do psicanalista
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duranteajudá-lo no auto-conhecimento. A psicanálise dá
extrema importância às questões da sexualidade.
O comportamento do psicanalista durante a sessão será
neutro, pois sua função é interpretar os dados
que vai recebendo, buscando explicação para os sintomas
do paciente no seu passado.
- Junguiana ou Psicologia Analítica: Foi desenvolvida
por Carl Gustav Jung, e diferencia-se da psicanálise pela menor
atenção dispensada à sexualidade. Para Jung, além
do inconsciente individual, existem elementos inconscientes, que aparecem
na mente de todas as pessoas. Sonhar que a pessoa está nua, por
exemplo, parece ser comum aos habitantes do planeta, independente da
cultura, raça ou religião. Na terapia junguiana, o terapeuta,
mais próximo do paciente, intervém com comentários
e sugestões.
- Cognitiva: foi desenvolvida por Aaron Beck. Segundo ela,
o que faz a diferença é o grau de importância que
o paciente dá a algo em sua vida. Trabalha com o que cada paciente
acredita, com a idéia de substituir crenças negativas
por positivas. Um exemplo: pessoas que sofrem de Síndrome do
Pânico habitualmente apresentam a taquicardia como indício
de crise. Por isso, a cada disparada do coração, ela associa
um ataque eminente. Na terapia cognitiva, o terapeuta trabalha essa
crença levando o paciente a perceber que outras situações,
como subir uma escada correndo, também podem levar a um disparo
cardíaco. Assim, o paciente começa a mudar seu diálogo
interno (que é automático, e não racional) e separar
o que é sintoma de crise de uma outra situação.
- Comportamental: o que importa para os behavioristas, como
também são chamados os psicólogos comportamentais,
é a reação das pessoas a certos ambientes e situações.
O objetivo é fazer o paciente mudar sua forma de encarar os próprios
medos. Por exemplo: algumas pessoas que têm verdadeiro pavor de
baratas e sobrem só de imaginar que pode haver alguma rondando
por perto. A partir desse dado, o terapeuta começa fazendo-o
vivenciar o problema, colocando-o frente a frente com o inseto ou aproximando-o
gradativamente dele, pedindo para que imagine estar passando pela situação
que o intimida. Esse processo será repetido até o medo
desaparecer.
- Terapia da Gestalt: idealizada por Fritz Perls, essa linha
vê o homem dentro do seu mundo. O objetivo é tratar o momento
presente do paciente, os fatos e emoções de sua vida atual.
Por exemplo: o paciente que vive mudando de emprego devido a sua falta
de habilidade de se entrosar com os colegas de trabalho. A partir desses
dados, o terapeuta o ajudará a descobrir quais as razões
de suas dificuldades no relacionamento. O psicoterapeuta estimula o
paciente a falar sobre seus problemas, fazendo-o entrar em contato com
eles. Quando isso ocorre, é importante tomar consciência
desses problemas e tentar descobrir qual a melhor forma de lidar com
as dificuldades.
Psiquiatra
ou psicólogo?
Nem todos sabem a diferença entre eles. Explica-se:
O psiquiatra é, antes de tudo, um médico, que fez, depois
da faculdade, mais três anos de especialização,
estudando as diversas linhas psiquiátricas. Como conhece o funcionamento
do organismo, indica medicamentos e internações, podendo
tratar de psicoses, depressões e esquizofrenia.
Já o psicólogo se concentra no estudo do comportamento
humano e não cuida de doenças físicas.
Ambos praticam a psicoterapia, orientando e apoiando seus pacientes
na busca do auto-conhecimento.
Consultoria:
Aparecida Malandrim Andriatte, psicoterapeuta (Santo André) e
Vera Lúcia Vasallo, psicoterapeuta (Santo André).
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Um
pra lá, dois pra cá
Dificilmente os filhos saem ilesos da separação dos pais.
Porém tudo vai depender de como os próprios adultos reagem
ao divórcio
Por:
Ivanilde Silva, Tania Zagury, Elizabeth Monteiro, Cynthia Lopes e Carlos
Roberto Bonato
Publicada na Revista da COOP – julho 2003
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Ana Clara, de nove anos, deixou os pais de boca aberta. Assim que foi
informada da separação do casal, a garota reagiu da forma
mais espontânea e otimista: “Que bom, agora terei duas casas”
. O mesmo não aconteceu com Guilherme, que passou a ter insônia
e ir mal da escola depois que seus pais assinaram os papéis do
divórcio. Nenhum desses casos é regra ou exceção
quando o fim do casamento dos pais vem à tona. Mas uma coisa
é certa: o grau do sofrimento dos filhos vai depender da forma
como o processo será administrado pelo casal.
Segundo especialista em comportamento, o ideal é a família
conduzir a separação da forma mais direta e transparente
possível, levando em consideração que os filhos,
independente da idade, entendem (ou, pelo menos, percebem) que algo
diferente está acontecendo. Além disso, é fundamental
que o casal esclareça aos filhos que o fato de papai mudar de
endereço não significa que nunca mais vai vê-lo,
pois os pais são para sempre.
Entendendo
o mundo infantil
Antes de dar a notícia às crianças, é importante
que os adultos compreendam um pouco mais o que pode passar nos corações
e mentes de seus filhos.
- Como enxergam o mundo a partir de si mesmas, é muito comum
crianças pequenas pensarem que os pais resolveram se separar
por causa de algo errado que elas fizeram. Por isso, é preciso
deixar claro que apenas os adultos são responsáveis por
essa decisão.
- Muitas crianças aceitam a notícia sem apresentar qualquer
reação. “Engolem o sapo” sem dizer nada. Porém,
mais ou menos dia, o sapo terá de ser eliminado. Nesse momento
podem, então, surgir reações inesperadas e comportamentos
que fogem ao controle.
- Não existe uma fórmula mágica que possa ser válida
para todos, mas uma forma de ajudar os filhos é estimulá-los
a falar sobre a separação, a fazer perguntas e a expressar
suas angústias. A maneira de conversar com eles e quais os detalhes
a ser revelados dependem da idade e do grau de maturidade da criança.
Porém jamais esconda a verdade.
- Algumas crianças são mais fechadas e ficam com receio
de fazer perguntas, neste caso, a mãe ou o pai pode introduzir
o assunto e passar a ela a idéia de que a separação
do casal não é um segredo terrível, mas sim um
tema pode ser discutido abertamente.
- Pais separados não são, necessariamente, sinônimo
de filhos problemáticos. Se você está arrastando
um casamento malsucedido por conta dos prejuízos que a separação
possa causar ao seu filho, atenção ao conselho do psiquiatra
Içami Tiba. “Geralmente uma boa separação
ajuda mais os filhos que a conservação de um mau casamento.”
Ajuda
para os pais
Para o psiquiatra Içami Tiba, em seu livro Quem Ama, Educa, é
necessário deixar bem claro que os filhos não têm
culpa da separação do casal, nem o poder de unir os pais.
Por mais complicado que seja, é importante que eles entendam
que a responsabilidade da separação é exclusivamente
dos adultos.
Como o assunto é delicado, alguns psicólogos chegam até
a sugerir a terapia de casal para uma melhor condução
do processo de separação. “Com ajuda de um profissional,
pai e mãe poderão trabalhar melhor as questões
pendentes e evitar que mágoas e rancores, que geralmente acompanham
a dissolução de um casamento, possam comprometer a futura
convivência com os filhos”, explica a psicóloga e
pedagoga Elizabeth Monteiro.
A sugestão não é um exagero. Não são
poucos os casos de ex-cônjuges que mal se falam e, quando se encontram,
só sabem discutir. Também não é raro pai
e mãe tumultuarem as crianças em estilingue para atingir
o outro, ou, então, fazendo-as de mensageiras de emoções
e conflitos mal resolvidos.
Conseqüências
da separação
Cada filho tem sua própria capacidade de compreensão e
de absorção, que depende da idade e de sua personalidade.
Cabe aos pais entender e respeitar as diferenças e encontrar
maneiras diversas de lidar com o problema, para que cada criança
sofra menos, até porque, nesses casos, a ausência total
da dor é impossível.
Na maioria das vezes, os reflexos costumam aparecer primeiro no boletim
escolar. De acordo com a educadora Tânia Zagury, um divórcio
amistoso envolvendo filhos otimistas como Ana Clara pode até
afetar a capacidade de concentração da criança
no início, mas esse comportamento tende a desaparecer com o tempo.
Em compensação, a dor da separação é
muito mais intensa em crianças com características negativistas,
como as que acreditam que tudo acontece por |
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causa
delas. Se nesses casos a separação for traumática,
as conseqüências serão ainda maiores. Podem, inclusive,
colocar em risco o ano escolar. “É importante que os pais
avisem a escola para que os professores possam dar um suporte emocional
ao aluno”, ressalta a educadora, autora do livro Escola Sem Conflitos
(editora Record)
O
corpo fala
As marcas da separação podem provocar também danos
físicos e emocionais, se o processo não for bem trabalhado
pela família “Os pais sabem que o filho vai sofrer com
o divórcio, mas a maioria não tem idéia da extensão
dos prejuízos”, observa Elizabeth Monteiro, autora do livro
Criando Filhos em Tempos Difíceis. Segundo especialistas, os
comprometimentos vão desde insegurança até distúrbios
de ansiedade:
-Reações comportamentais: dificuldade de relacionamento,
agressividade, isolamento, apatia, insegurança, falta de confiança
nos outros, timidez e medo de encarar desafios.
Reações emocionais: distúrbios de ansiedade, depressão
e transtornos compulsivo-obsessivos.
- Reações físicas: insônia, dores de cabeça
e dor de estômago e mau funcionamento intestinal.
Isso não quer dizer que, ao passar essa fase, ele apresentará
todas essas mudanças ao mesmo tempo. Cada um reage de uma forma.
O importante é que pai e mãe passem a observar atentamente
o comportamento da criança ou adolescente. Mudanças drásticas,
que não condizem com as características do filho, podem
indicar a necessidade de uma atenção especializada. Segundo
psicólogos, o ideal seria que os possíveis traumas da
separação não se cristalizassem, podendo gerar
conseqüências para toda a vida. Portanto, mais do que bom
senso, muita atenção.
Abrindo
o jogo
Alguns cuidados e regras são fundamentais para que a separação
seja menos danosa à saúde física e emocional das
crianças
Quando falar: tenha certeza se a decisão da separação
é definitiva ou se tudo não passa de uma crise passageira.
Poupo os filhos de sofrer desnecessariamente com idas e vindas sobre
o divórcio. Porém, se a separação for definitiva,
é hora de comunicá-los. A notícia deve ser dada
pelo casal. Assim, os pais evitam que cada um passa a mesma notícia
de maneira diferente.
- Onde falar: o melhor lugar é a própria casa e, de preferência,
quando todos os filhos estiverem reunidos. Em ambientes estranhos, eles
tendem a ficar poco à vontade para expor seus sentimentos, pensamentos
e emoções. Em restaurantes nem pensar.
- Como falar: explique os motivos da separação, mas evite
entrar em detalhes ou questões subjetivas. Informe quando e como
será o processo, explicando o que acontecerá com os filhos
(se ficarão com a mãe, se mudarão de escola). Responda
a todas as perguntas e dê retaguarda a todos os sentimentos.
O mais importante, porém, é ressaltar que o ex-casal continuará
sendo pai e mãe. Evite frases tipo “mamãe e papai
não se amam mais”. Isto pode levar as crianças a
achar que o amor dos pais por elas também é instável.
- Como proceder: não envolva os filhos em disputas sobre custódia
ou em partilha. Para a criança, escolher um dos pais significa
excluir o outro. a culpa gerada por se sentir desleal para com um dos
dois poderá provocar ansiedade.
Guarda
compartilhada
Ficar com a mãe ou pai? O novo código civil brasileiro,
que entro em vigor no início do ano (2003), põe fim ao
privilégio da mulher Ter preferência de guarda do filho.
A partir do novo código, cuida dos filhos o cônjuge que
tiver melhores condições de cria-los. O critério
não é apenas financeiro. Também são levados
em conta a afetividade, afinidades e condições de proporcionar
melhor educação, sem contar também a vontade da
própria criança. Um grande avanço, segundo Carlos
Roberto Bonato, presidente da Associação de Pais e Mães
Separados. “Só que também é preciso mudar
a cultura dos profissionais que lidam com os processos de separação”,
observou.
Fundada em Florianópolis em 1997, a Apase tem hoje na guarda
compartilhada sua principal bandeira. Adorado em vários países
da Europa e nos Estados Unidos, esse regime prevê que pai e mãe
mantenham os mesmos direitos e obrigações na formação
e desenvolvimento das crianças. Pelo modelo, escolhe-se uma moradia
principal, mas os pais têm flexibilidade para combinar dias e
horários de encontros. A falta dessa lei no Brasil, no entanto,
não impede que esses arranjos sejam implantados informalmente,
gerando benefícios a todos os envolvidos.
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| Brincadeira
é coisa séria
Por
Adriana Moura - Publicada na Revista Escola Edição junho
2003
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Pião, corda, ciranda e passa-anel. Quem não
lembra com carinho das brincadeiras de infância? Correr, pular,
jogar parecem apenas diversão, mas são exercícios
que vão úteis para a vida inteira. Pena que a vida urbana
esteja aposentando o verbo brincar. Desde pequenas, as crianças
vivem uma rotina de adultos: da escola para as aulas de inglês,
música ou esporte e o resto do tempo presas dentro de apartamentos
por medo da violência, assistindo à televisão.
“A brincadeira é importante pois é por meio dela
que a criança adquire conhecimentos. Brincando ela apreende o
mundo”, afirma a pedagoga e psicóloga Elizabeth Monteiro,
autora do livro Criando filhos em tempos difíceis. Além
disso, ao brincar, os pequenos aliviam suas tensões, descarregam
a agressividade, exercitam a criatividade e treinam os papéis
que vão desempenhar na vida, quando obedecem às regras
de um jogo, por exemplo.
Com
o próprio corpo
A primeira manifestação de inteligência aparece
aos três meses, quando o bebê começa a brincar com
as mãos, seu primeiro brinquedo. Até os seis meses de
idade, o próprio corpo é sua brincadeira preferida. Assim
ele balbucia e descobre os sons, morde os pés para aprender a
consistência e sacode as mãos para compreender os movimentos.
“A criança não precisa ser incentivada a brincar.
É um ato que está dentro dela”, explica Elizabeth.
Porém muitos pais não notam a importância que a
brincadeira tem para os pequenos e enchem a agenda do filho com atividades
mais “úteis”.
Além disso, por ter pouco tempo livre, acabam não brincando
com ele, nem ensinando os jogos que aprenderam na sua própria
infância. “Com isso as crianças estão desaprendendo
a brincar”, assusta-se a psicóloga.
As conseqüências são tristes. Criança que não
brinca tem tendência a sofrer de doença de adultos, como
depressão. Para se ter idéia, o índice de suicídios
entre crianças e jovens aumentou mundo no mundo inteiro nos últimos
anos. Diabetes, obesidade, stress e até úlcera são
cada vez mais freqüentes antes dos 12 anos
“Há crianças com 9, 10 anos que têm vergonha
de brincar”, revela Elizabeth. Transformados em adultos antes
do tempo, as crianças desenvolvem menos vínculos afetivos,
justamente aqueles que se formam na primeira infância e duram
para toda a vida. Por isso, ficam mais sujeitos a problemas como envolvimento
com drogas e violência, por exemplo.
Questão
de afeto
- Pais que brincam com os filhos entram no mundo lúdico em que
eles vivem e, assim, estabelecem uma relação de afeto
mais próxima e duradoura.
- Brincar com as crianças também torna mais fácil
criar limites durante a educação. “Criança
que não tem o que fazer dá trabalho mesmo. Mande esse
menino fazer casinha com caixa de papelão e veja o que acontece
de bom”, diz Elizabeth.
- Tome cuidado com o excesso de limites, que tolhem a capacidade criativa.
Tudo bem proibir que o filho jogue bola na sala cheia de bibêlos,
mas porque não deixar que ele pinte as paredes do banheiro com
pasta de dente, desde que ele limpe depois? “Os menores precisam
fazer sujeira”, alerta a psicóloga.
- Um estudo de psiquiatria analisou a influência da televisão
na formação da criança. Chegou à conclusão
que entre os 4 e 6 anos – a faixa de idade do pensamento mágico
– as que trocam a brincadeira pela TV apresentam dificuldade em
criar suas próprias fantasias. Essa troca prejudica o pensamento
criativo no futuro e depois pode favorecer o vício em drogas.
As alucinações provocadas por elas substituiriam as fantasias
que perderam.
- Brincar é até uma forma de fazer o filho ficar quieto
enquanto você faz o jantar. Quando estiver na cozinha, misture
farinha e água numa vasilha e deixe que ele amasse, fazendo bonequinhos.
Enquanto assiste TV, sente no chão com ele e faça bolas
de papel com jornal. Além de |
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distrair, a criança exercita a coordenação
motora e a força nos dedos e mãos, importantes no momento
da alfabetização.
- Melhor ainda é tirar a tarde de Sábado para ensiná-lo
a fazer bola de meia, figuras em papel machê (mistura de jornal,
água e cola), a jogar fubeca, brincar de amarelinha ou andar
de bicicleta. Deixe que ele chame as crianças do prédio
inteiro para brincar de cabra-cega, mesmo que seja no seu apartamento.
É assim que ele aprenderá a ser um adulto sociável.
Brincadeiras tradicionais são manifestações da
sabedoria e da cultura popular. Se você já esqueceu como
é que se brincava quando era pequeno, aprenda de novo e passe
adiante.
Pegador (pega-pega)
Muito simples, não exige nenhum recurso além de um pouco
de espaço. Escolhe-se uma criança para ser o pegador.
Ele deve correr atrás das outras crianças até encostar
a mão em uma. A criança que foi pega passa a ser o novo
pegador e assim por diante. Há inúmeras variações
da brincadeira. A mais comum é estabelecer um ou mais locais
como pique: a criança que encostar a mão nesse local não
poderá ser pega.
Esconde-esconde
(pique-esconde)
Primeiro, é escolhido um pique, lugar onde as crianças
vão “bater seu nome”. Enquanto uma fica no pique
e conta até um certo número pré-estabelecido, normalmente
voltada para a parede, as outras se escondem. No fim da contagem, o
pegador avisa “Lá vou eu!” e sai à procura
dos participantes. Ao encontrar um, deve chegar antes no pique e gritar
o nome da pessoa. Se a “descoberta” chegar antes e gritar
seu nome, estará salva. O novo pegador é escolhido entre
aqueles que não conseguiram se salvar.
Cabra-cega
É uma variação do pega-pega, com as mesmas regras,
só que o pegador fica com os olhos vendados. Para conseguir pegar
alguém, deve ficar atento a todos os sons. Normalmente, é
proibido que os participantes se afastem demais. Uma forma alternativa
é o gato-mia, geralmente realizado numa sala escura e sem venda.
Quando o pegador encostar em alguém, deve dizer “o gato
mia”. A crianças que foi pega deve então imitar
os miados de um gato e o pegador deve descobrir q uem é apenas
pelo “miau”. Se acertar, a pessoa passará a pegar.
Pega
ladrão (polícia e ladrão)
São formadas duas equipes com a mesma quantidade de pessoas:
uma dos policiais, uma dos ladrões. Escolhe-se um local para
ser a cadeia, que pode ser um círculo marcado com giz. Os ladrões
têm tempo determinado para fugir, depois os policiais saem da
cadeia e correm atrás deles para levar para a prisão.
Quando todos os ladrões forem pegos, os times se invertem.
Quente
ou frio (chicotinho queimado)
De regras simples, pode ser brincado por apenas duas crianças.
Uma delas esconde um objeto e as demais procurar por ele. Conforme se
aproximarem ou distanciarem, quem escondeu dirá se está
quente (mais próximo) ou frio (mais longe). Pode também
dizer se está esquentando, esfriando, pelando (ao lado do objeto),
etc. Quem encontrar esconde da próxima vez.
Telefone
sem fio
As crianças sentam-se em círculo. Uma delas fala uma palavra
ou expressão no ouvido da que está à sua esquerda.
Esta retransmite a palavra, conforme tenha entendido para a criança
seguinte. Normalmente é proibido repetir. A última criança
a ouvir fala para todos o que escutou, freqüentemente uma coisa
sem nenhuma relação com a primeira.
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Mito
atrapalha desejo sexual
Por: Joel Rennó Jr. - coordenador geral do Pró-Mulher, Projeto
de Atenção à Saúde Mental da Mulher do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
Publicada no Jornal Diário de São Paulo – 18 de Outubro
de 2005
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Na semana
passada, eu conceituei o desejo sexual hipoativo (DSH) e descrevi
os fatores orgânicos que podem levar à diminuição
da libidofeminina. Quando não há uma constatação
de ordem orgânica, para as disfunções sexuais,
é fundamental trabalharmos com os aspectos psicossociais e
culturais. As disfunções sexuais, nas quais encontra-se
a falta do desejo, surgem comumente de atitudes; o modo de pensar,
sentir e agir; do comportamento, resultante do potencial herdado,
e também do meio fisico e do aprendizado sociocultural. É
durante a infância, basicamente, que se dá o inicio do
aprendizado do viver ou da convivência em sociedade, ou seja,
é nessa fase em que a pessoa adquire suas primeiras normas
e padrões de comportamento a serem seguidas ao longo de sua
vida. Por meio das instituições, o indivíduo
introjeta os padrões de conduta, normalmente estereotipados,
e que não oferecem opções de escolha ao mesmo.
Quando a pessoa não é capaz de fazer a escolha entre
o que lhe foi imposto, através da cultura, e o que de fato
quer para si mesmo, é que aparecem as disfunções
sexuais (falta desejo ou desejo sexual hipoativo). Outro fator desencadeante
de disfunção sexual é o que se chama de “mito”.
São, na verdade, tabus e crendices – “idéias
ou conjunto de idéias com forte conteúdo emocional que
quer impor-se como verdade”. Os mitos apresentam a realidade
de forma distorcida e não possuem nenhum valor cientifico.
Valores e informações são repassados de pai para
filho, por vezes, contendo falhas do passado, perdendo sua autenticidade.
O que também podem interferir de uma forma negativa na sexualidade.
Abaixo, exemplos de alguns mitos que podem influenciar na falta de
desejo sexual feminino, segundo Lopes, em Sexualidade Humana, além
do que observo com tais pacientes, em minha prática clínica:
“O hímen é prova da virgindade”.
“O desejo e a potência sexual diminuem sensivelmente depois
dos 40-50 anos”.
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“As
mulheres não sentem desejo sexual durante a gestação”.
“O coito durante o período menstrual traz um risco de infecção
na mulher”.
“O tamanho do pênis influi no prazer”.
“O homem nunca falha”.
“Quanto maior a freqüência, maior é o desgaste
(sexual, psíquico, físico, etc.)”.
“A virgindade é o tesouro da mulher”.
“A mulher tem menos necessidade que o homem”.
“Na mulher, o gozo é mais espiritual que corporal”.
“As mulheres frígidas o são por natureza e jamais
conheceram orgasmo”.
“A menopausa assinala o fim da vida sexual da mulher”.
“O álcool é um estimulante sexual”.
“Sexualmente, a mulher é passiva e o homem é ativo”.
“Se a mulher não é charmosa e jovem não pode
gozar de uma boa relação”.
“A mulher deve entregar-se ao homem para satisfazer o desejo dele”.
“A mulher não deve ter a iniciativa frente ao sexo”.
“A mulher não deve dar conhecimentos de suas preferências
eróticas para não ferir o seu companheiro”.
“A mulher não deve ter relações sexuais durante
a menstruação”.
“O orgasmo deve ser simultâneo com o do homem”.
“A mulher deve dar por finalizado o ato sexual logo que o homem
tenha ejaculado”.
“A mulher que vivencia o sexo deve amar o seu parceiro”.
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Sem
memória não há aprendizagem
Por: Everton Sougey, Elvira Souza Lima, Ivãn Izqulerdo,
Leila Vasconcelos, Paulo Caramelll - Publicada na Revista Escola –
Edição junho/julho 2003
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Durante
séculos, na escola, memorizar foi sinônimo de decorar nomes,
datas e fórmulas. Afinal, eram esses os conhecimentos sempre
exigidos nas provas, nas chamadas e nos testes. Com base nos estudos
sobre o processo de aprendizagem da criança, concluiu-se que
a decoreba era inimiga da educação. E a memória
– confundida com repetição – foi posta de
castigo.
Um grande erro. A memória é a base de todo o saber –
e, por que não dizer, de toda a existência humana, desde
o nascimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. “É
ela que dá significado ao cotidiano e nos permite acumular experiências
para utilizar durante toda a vida”, afirma a psicóloga
e antropóloga Elvira Souza Lima, especialista em desenvolvimento
humano.
Nos últimos 20 anos, a neurociência avançou muito
nas descobertas sobre o funcionamento do cérebro. Hoje sabe-se
o que acontece quando ele está captando, analisando e transformando
estímulos em conhecimento e o que ocorre nas células nervosas
quando elas são requisitadas a se lembrar o que já foi
aprendido. “Com isso, o professor pode aprimorar suas estratégias
de ensino”, diz o neuropsiquiatra Everton Sougey, coordenador
do curso de pós-graduação em Neuropsicologia da
Universidade Federal de Pernambuco. Estão provadas, por exemplo,
as vantagens de estabelecer ligações com o conhecimento
prévio do aluno ao introduzir um novo assunto e de trabalhar
também a emoção em sala de aula. O cérebro
responde positivamente a essas situações, ajudando a fixar
não somente fatos, mas também conceitos e procedimentos.
O valor do conhecimento prévio
Quando assiste aula, o estudante recebe informações de
todo tipo, tanto visuais como auditivas. Elas se transformam em estímulos
para o cérebro e circulam pelo córtex cerebral antes de
serem arquivadas ou descartadas. Sempre que encontram um arquivo já
formado (o tal conhecimento prévio) arrumam um “gancho”
para o seu armazenamento fazendo com que no futuro ela seja resgatada
mais facilmente. “É como se o recém-chegado fosse
morar em uma nova casa, mas em rua conhecida”, ilustra Elvira
Lima. Quando essa informação é resgatada da memória,
trilha os mais variados caminhos. Se eles já tiverem sido percorridos
anteriormente, a recuperação de conhecimentos será
simples e rápida. O que não tem nada a ver com decoreba
“Se o estudante não aprende um conteúdo é
porque não encontrou nenhuma referência nos arquivos já
formados para abrigar a nova informação e, com isso, a
aprendizagem não ocorreu. Não adianta insistir no mesmo
tipo de explicação”, ressalta a neuropsicóloga
Leila Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco. Cabe ao professor
oferecer outras conexões. Como? Usando abordagens diferentes
e estimulando outros sentidos. Daí a importância de investigar
os conhecimentos prévios da turma, recordar conteúdos
de aulas anteriores, para formar os “ganchos”, e dispor
de diferentes estratégias de ensino.
Teoria
“Somos aquilo que recordamos”, conceitua Iván Izqulerdo,
professor de Neuroquímica da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Ele dá um exemplo: nenhum texto é compreendido
se não se lembra o significado das palavras e a estrutura do
idioma utilizado. Tudo isso precisa estar registrado no cérebro
para ser resgatado no momento oportuno. A memória, enfatiza Elvira
Lima, é a reprodução mental das experiências
captadas pelo corpo por meio dos movimentos e dos sentidos. Essas representações
são evocadas na hora de executar atividades, tomar decisões
e resolver problemas, na escola e na vida.
Criando
elaborações mentais
I O cérebro funciona em módulos cooperativos, que se ajudam
na hora de recuperar informações. Quanto mais caminhos
levarem a elas, mais fácil será o “resgate’.
Exemplo: se um conceito está conectado simultaneamente a uma
imagem e a um som, pelo menos três áreas diferentes do
cérebro trabalharão para recuperá-lo. Por isso,
inventar uma imagem simbólica – associar conceitos a formas,
palavras a sons, cores a significados e assim por diante - é
um hábito extremamente saudável. “Sair do concreto
faz com que determinada informação seja guardada sob várias
chaves, como se fossem fichas de armazenamento, facilitando a consulta”,
destaca Jiitka Soskova, psicóloga checa especialista em inteligência
artificial. As fórmulas mnemônicas (criação
de letra para música conhecida, versinhos rimados, frases engraçadas)
são outros exemplos de associações que levam à
memorização. Ofereça esses mecanismos e estimule
cada aluno a criar as próprias ações para conteúdos
que devem ser armazenados.
O papel da emoção
Sentimentos regulam e estimulam a formação e a evocação
de memórias. São eles que provocam a produção
e a interação de hormônios, fazendo com que os estímulos
nervosos circulem mais nos neurônios. Graças a esse fenômeno
cerebral é mais fácil para uma criança lembrar-se
do processo de fotossíntese se ligar esse conteúdo de
Ciências a uma planta que tem em casa ou à árvore
em que costuma subir quando está em férias na casa da
vovó.
Memória
inconsciente
Algumas lembranças ficam “escondidas” porque estamos
expostos a mais informações do que conseguimos guardar.
Aparentemente perdidas, elas ficam num lugar do cérebro chamado
inconsciente. Ninguém sabe explicar exatamente por que, mas elas
voltam à consciência sem que o indivíduo controle.
Pesquisas mostram que isso sempre ocorre em alguma circunstância
especial, quando algum fato ou informação evoca lembranças
que se julgavam perdidas.
Esquecer
para lembrar
O esquecimento (de fato) é o descarte de algo pouco importante
que só serve para sobrecarregar os mecanismos de memorização.
É fundamental no processo de aprendizagem, porque deixa o caminho
livre para que as informações e conteúdos fundamentais
sejam arquivados. Uma pessoa que conhece os conceitos do presidencialismo
e parlamentarismo (importante) pode explicar a diferença entre
os dois a qualquer interlocutor em qualquer momento de sua vida, mas
provavelmente jamais se lembrará do dia em que aprendeu isso
nem da roupa que o professor usava na hora em que o assunto foi discutido
em classe (pouco importante). O cérebro jogou fora detalhes,
mas o conhecimento foi arquivado e depois conectado com outras informações
correlatas, formando novos arquivos.
Um arquivo organizado
O cérebro é dividido por uma fenda de dois hemisférios,
que são segmentados em lobos, regiões demarcadas sem muita
nitidez. As informações captadas pela visão, pela
audição, pelo olfato, pelo paladar e pelo tato provocam
impulsos elétricos e reações químicas em
lobos diferentes e não são guardadas da maneira como foram
captadas. Elas são fragmentadas, classificadas e hierarquizadas.
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Paulo Caramelll, especialista em neurologia cognitiva do Hospital
das Clínicas da Universidade de São Paulo, explica que
tanto novas informações quanto as já armazenadas,
depois de conectadas e reelaboradas, passam obrigatoriamente pelo
hipocampo (H), estrutura que fica sob os dois hemisférios.
De lá as informações são espalhadas por
toda a superfície do cérebro, o córtex. A classificação
e o armazenamento de informações são tão
específicos a ponto de, dentro do “arquivo” linguagem,
uma “pasta” guarda verbos, outra, substantivos e assim
por diante.
Uma
rede bem montada
Sempre que você oferecer informações de diferentes
naturezas sobre um mesmo conteúdo, estará ajudando o
aluno a formar um aprendizado e um conhecimento que poderá
durar por toda a vida. Fornecendo imagens, sons, a possibilidade de
usar o corpo em movimentos e produzindo emoções, diversas
partes do cérebro serão ativadas quando esse conteúdo
precisar ser resgatado, tornando a lembrança mais fácil.
E ao unir esse conteúdo a um conhecimento prévio, serão
traçados vários caminhos que tornarão o aprendizado
mais eficaz.
Tipos
de memória
Acredita-se existirem tantas memórias quantas forem as experiências
acumuladas e, com isso, a capacidade de armazenamento de informações
seria imensa. Aqui vamos falar apenas da capacidade geral do homem
de captar, armazenar e lembrar informações. Por isso,
grosso modo, a memória pode ser classificada da seguinte maneira:
1. Pela sua duração- Memória de curto prazo:
Sobrevive o tempo necessário para a informação
ser utilizada. Exemplo: qualquer conteúdo que é decorado
para uma prova permanece no cérebro até o aluno entregar
o documento ao professor. Se ele tiver boa nota, talvez nunca mais se
lembre do que estudou. Não forma arquivos. Só vira memória
de longo prazo se encontrar vínculo com outra informação
já armazenada ou pela repetição.
Memória de longo prazo: Fica mais tempo no cérebro
e é aquela que todo professor gostaria de fomentar em seus alunos.
Quando dura anos, vira memória remota. Uma informação
permanece no cérebro porque, quando foi apreendida, seus estímulos
geraram novas sinapses, desencadearam síntese de proteínas,
ativaram genes e provocaram a sua consolidação como conhecimento
apreendido.
A memória de trabalho ou ativa: não se encaixa em nenhuma
das categorias anteriores. É assim chamada por analogia com a
memória dos computadores. Ivãn Izquierdo define a como
“gerenciadora da realidade”, ela conecta as informações
da memória de curto prazo com as já arquivadas para comparar,
analisar, decidir ou não abrir um novo arquivo. Ele dá
o exemplo: conservamos na consciência algumas palavras utilizadas
no início desta frase somente para compreender o significado
da sentença. Depois esquecemos o termo exato, mas conservamos
na memória a idéia principal. É também aquela
que o aluno usa ao receber suas instruções antes de realizar
uma atividade, ao recordar as orientações no momento da
execução. Essa memória usa as capacidades do córtex
pré-frontal do cérebro, lugar das chamadas funções
cerebrais superiores, como a tomada de decisão, a análise
crítica, o julgamento.
2. Pelo seu conteúdo – Memória declarativa:
A episódica ou autobiográfica guarda os fatos vividos
pelo indivíduo, como o primeiro encontro com a pessoa amada ou
uma aula especial, em que algo inusitado tenha acontecido (um teatrinho,
show ou uma situação que despertou algum tipo de emoção
no aluno).
A semântica: a mais importante durante o aprendizado
– arquiva os conhecimentos gerais como o significado de palavras
e conceitos.
Memória de procedimentos:é composta pelas habilidades
motoras ou sensoriais. Como andar de bicicleta ou a maneira de proceder
diante de determinadas experiências realizadas na escola. Muitas
vezes, pela observação e pelo treinamento, esses conhecimentos
são arquivados de maneira implícita, sem que haja consciência
do aprendizado.
Entenda
o cérebro e ensine melhor
Ao conhecer o funcionamento da memória, você pode planejar
ações para ajudar a turma a armazenar e evocar conhecimentos.
Confira algumas estratégias:
- Estabelecer relações entre novos conteúdos e
aprendizados anteriores faz com que o caminho daquela informação
seja percorrido novamente (evocação), tornando mais fácil
seu reconhecimento.
- Criar elaborações mentais envolvendo recursos como sons,
imagens, fantasias e significados e (por que não?) humor permite
que várias áreas do cérebro trabalhem simultaneamente
no resgate de informações e estimula a memória.
- Utilizar gráficos, diagramas, tabelas e organogramas para classificar
as informações faz com que o cérebro tenha mais
facilidade para armazená-las e, portanto, resgata-as com mais
facilidade.
- Reservar os últimos minutos da aula para conversar sobre o
conteúdo estudado possibilita que o novo conhecimento percorra
mais uma vez o caminho no cérebro dos estudantes. Assim, eles
fazem uma releitura do que aprenderam.
- Usar brincadeiras, dramatizações ou jogos para levar
a emoção à classe favorece a aprendizagem. Isso
só funciona se houver relação entre o conteúdo
e a situação lúdica.
A
evolução vem com a idade
Até ao 9 meses, o bebê já tem praticamente
a quantidade definitiva de neurônios. São raras as pessoas
que se lembram de fatos ocorridos antes dos 4 anos de idade. Nos primeiros
anos de vida, os dois hemisférios cerebrais ainda não
estão totalmente formados e os feixes de neurônios que
fazem a comunicação entre o lado esquerdo e o direito
ainda não foram consolidados. Nem todo mundo se desenvolve exatamente
do mesmo jeito, mas pode-se dizer que, em geral até os 7 anos
de idade a memória visual é mais dinâmica –
daí por que o desenho deve ser bastante utilizado nessa fase.
Se for bem estimulada, por volta dos 9 ou 10 anos a criança começa
a usar o raciocínio abstrato – e o material pedagógico
deixa de ser tão útil na ativação da memória.
Segundo Mel Levine, pediatra e professor da Universidade da Carolina
do Norte, nos Estados Unidos, é nessa idade que se constroem
os padrões e as regras que permitirão reconhecer dados
semelhantes. Depois dos 13 ou 14 anos é hora de aprimorar as
habilidades matemáticas e de leitura e escrita, pois elas podem
ser resgatadas da memória automaticamente. Nos adolescentes,
a informação circula em altíssima velocidade no
cérebro – cada hemisfério sabe o que o outro guarda
e faz. A maioria dos estudantes é capaz de criar estratégias
próprias para armazenar dados, estabelecendo relações
com sua vida, suas fantasias e seus conhecimentos prévios. Por
volta dos 70 anos, quando não é estimulada, a memória
pode começara a falhar em algumas pessoas.
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